Quinta de manhã, nos dividimos entre sorrisos nervosos e pequenas demonstrações de ansiedade.
Cada um de nós tem seus motivos, o Marcelo embarcaria pela primeira vez em um avião e eu – com toda minha necessidade de controle sobre a vida – não tinha desenhado nenhum roteiro para o que seria nossa primeira viagem juntos para fora do Brasil.

Ganhamos gentilmente uma carona dos meus tios até o aeroporto, onde dividimos um café. Nos despedimos e seguimos para área de embarque, Marcelo ligou para mãe dele para avisar que em minutos estaria nos ares, nesse momento era possível contar a tensão dele com uma faca de tão real.

Descobrimos em cima da hora que estávamos no portão errado quando um uruguaio que estava ao nosso lado correu apressado, levando em baixo do braço a boneca que comprou de presente para a filha. Encontramos nosso portão a tempo. As duas horas e meia de deslocamento entre GRU e MVD passaram rapidamente e aterrissamos em uma Montevidéu com clima ameno e um sorriso tímido de sol.

A agente de imigração foi gentil conosco, desejando boas vindas depois de colher nossas fotos e digitais. Pagamos um transfer até nosso hotel em reais e cruzamos rapidamente alguns bairros para desembarcar alguns outros turistas que dividiram o carro com a gente.

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Arredores do Parque Rodó.

Nos hospedamos na Cidade Velha, a pouquíssimos passos da Praça Independência. A equipe do hotel nos recebeu bem, mostrando paciência para entender o “portunhol” que começamos a falar. Naquele momento notamos que tudo ficaria bem, o Marcelo tinha sobrevivido ao voo e eu – mesmo sem qualquer ideia sobre o que fazer na cidade – comecei a relaxar.

Saímos pelas ruas sem destino, com um mapa de papel que conseguimos na recepção, procurando pelos pontos turísticos e por tudo aquilo que tocasse nosso coração. Andar pela cidade, aliás, virou nossa atividade principal, já que as ruas planas e arborizadas aliadas ao clima convidavam a um passeio. Eu poderia dar detalhes de cada ponto turístico que visitamos e como cada um deles vale a experiência, mas vou deixar para outro dia. Hoje, nesta carta quero apenas dizer como é possível viver, sentir e amar Montevidéu, mesmo sem roteiro.

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Velhos amigos pescando no Rio De La Plata.

Nós fomos observadores ocultos, invasores tentando passar despercebidos entre locais.

Na Cidade Velha admiramos as construções e o vai e vem dos trabalhadores, em Palermo rimos do frio que parecia fazer já que todos estavam agasalhados e somente nós dois usávamos roupas de verão. Enchemos nossos corações de ternura quando passamos por um colégio, onde adolescentes riam alto e tomavam mate e pouco a frente quando vimos um grupo de criança saindo da escola, correndo em direção a seus pais, todas em seus uniformes e com seus laços coloridos no pescoço. No Parque Rodó vimos uruguaios com seus cães – muitos, de todos os tipos, cores e tamanhos – fora da guia. Em Punta Carretas passamos por bancas onde as frutas eram expostas na rua e perto de Ellauri entramos em uma padaria porque os doces da vitrine eram lindos demais pra resistir. Em Pocitos passamos pela orla, comemos no melhor e mais barato restaurante que já fomos e caminhamos até chegarmos no Centenário, cruzando um circo de rua e outras diversas praças pelo caminho.

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Quase tão famoso quanto o de Amsterdã haha!

Aos finais de tardes íamos até a praça mais próxima, onde todos pareciam se encontrar. Ficávamos ali por horas, observando os hábitos e os costumes daquela gente tão simples e tão aparentemente realizada. Terminávamos as noites em algum bar onde tomávamos Stella de litro encantados, já que ainda não tínhamos dela por aqui no Brasil.

Deleitamo-nos com a segurança, em como a vida parecia descomplicada e suficiente ali e em como nos sentíamos bem. Desejamos secretamente viver ali, observando as estações mudarem diante de nossas janelas e levando nossos filhos para escola com nossos cachorros ao lado.

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Tranquilidade, qualquer hora do dia.

Quando encaramos que partida estava próxima, decidimos jurar nosso amor na Fonte dos Cadeados e utilizamos o cadeado da mala, o único que tínhamos já que não encontramos outro no mercado. Em meio a tantos outros amantes selamos a união entre nós e a cidade que tanto nos fez sorrir. Nossa temporada foi curta, mas os dias foram longos o suficiente para recordar por toda a vida.

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Trancados para sempre!

Portanto, esperamos que um dia você tenha a experiência de conhecer a cidade e ter tantos bons momentos como nós tivemos. Se você já foi até lá, conta pra gente o que viu e sentiu?
Ah, já falamos um pouquinho mais sobre o Uruguai neste post aqui.
No mais, esperamos que você continue na estrada, viajando, vivendo e sendo feliz 🙂 .